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sábado, 17 de outubro de 2009

...

"Aprende
A não esperar por ti
pois não te encontrarás
No instante de dizer sim ao destino
Incerta
paraste
emudecida
E os oceanos depois devagar te rodearam

A isso chamaste Orpheu Eurydice
Incessante intensa lira vibrava ao lado
Do desfilar real dos teus dias
Nunca se distingue bem o vivido do não vivido
O encontro do fracasso
Quem se lembra do fino escorrer da areia na ampulheta

Quando se ergue o canto
Por isso a memória sequiosa quer vir à tona
Em procura da parte que não deste
No rouco instante da noite mais calada

Ou no secreto jardim à beira-rio
em Julho"

- Sophia M. B. Andresen -

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

...

Tempo — definição da angústia.
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.

Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Fica apenas a tua negra sombra:
— O passado,
Amargura maior, fotografada.

Tempo...
E não haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
Que estrangule a ampulheta duma vez!

Que realize o crime e a perfeição
De cortar aquele fio movediço
De areia
Que nenhum tecelão
É capaz de tecer na sua teia!

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

segunda-feira, 8 de junho de 2009

...

Pela arte me recrio
Pela sorte...ando em sensações
Pelo amor... enlouqueço
Pela vida me arrepio
Pelo suor... identifico a temperatura
Pelo êxtase ...entrelaço-me nas pernas
Pelo toque... seduzo a perversão
Pelo delírio...entrego-me em sonhos
Pela boca molhada...molho a ponta da língua alheia
Pelo mar... flerto com a sereia
Pela poesia em ti...minha alma vive



"Há quem passe pelo bosque e apenas veja lenha para a fogueira"
Tolstoi , Léon

"As coisas mais belas são ditadas pela loucura e escritas pela razão"
Gide , André

terça-feira, 14 de abril de 2009

Sei...

Aqui estou, cercada de mim,
melancolia trazida
do interior de um bosque,
silhueta a preto e branco
na figuração de um pássaro em voo lento.


Há quanto tempo,
só eu sei quanto,
as amarras de um barco
se quebraram,
no interior frágil
do instante em que fui vento,
ou apenas um abandono breve,
como as mãos no acto de dar.

No ângulo do grito e da língua
se explica a leveza das lágrimas,
circunfluência no interior das pálpebras,
longínquo lago na cintura dos lábios.

Cheguei ao lugar onde se cruzam
todos os ventos sem hálito
e chamo pelo nome os frutos e a fome,
para que ninguém se comprometa
ao tocar nos meus ombros.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Aqui.. Agora

Ao longe, ao luar,
No rio uma vela,
Serena a passar,
Que é que me revela?
Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.

Que angústia me enlaça?
Que amor não se explica?
É a vela que passa
Na noite que fica.






A angústia é o preço que se paga pela lucidez.

quarta-feira, 11 de março de 2009

...



De tudo só ficam três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando.
A certeza de que é preciso continuar.
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar.

Portanto devemos fazer:

Da interrupção um novo caminho.

Da queda, um passo de dança.

Do medo, uma escada.

Do sonho, uma ponte.

Da procura, um encontro...

Olha, olha para mim...
Olha com atenção...
Agora ouve o coração bater…
Acredita...
Aconteça o que acontecer
Ele irá continuar assim...

sexta-feira, 6 de março de 2009

Tempo Fluvial

"Se eu definisse o tempo como um rio, a comparação levar-me-ia a tirar-te de dentro da sua água, e a inventar-te uma casa. Poria uma escada encostada à parede, e sentar-te-ias num dos seus degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia: «Não te apresses: também a água deste rio é vagarosa, como o tempo que os teus dedos suspendem, antes de virar cada página.» Passam as nuvens no céu; nascem e morrem as flores do campo; partem e regressam as aves; e tu lês o livro, como se o tempo tivesse parado, e o rio não corresse pelos teus olhos."

terça-feira, 11 de novembro de 2008

...

Não me olhes, não me tentes perceber
Não me ligues, deixa-me apenas passar
Não me toques, e não me farás sofrer
Não me ames, mas continua-me para sempre a amar

Não repares sequer em mim
O teu olhar deixa-me perdida
Deixa-me queimada assim
Deixa-me matar a minha vida

Vê-me apenas como uma ilusão
Que não existe nem nunca existirá
Acaba com o meu doente coração
e nunca mais por ti baterá

Nega-me tudo o que queres negar
Inclusive o amor que não me pertence
Faz-me esquecer que te queria amar
Rouba de mim aquela memória sorridente

Depois: Evita-me
ou simplesmente continuar a evitar
em ultimo caso: odeia-me
E proíbe-me de te continuar a amar

Apenas porque já não consigo
O meu coração esta destroçado
Nada fazes, nada queres, nada posso querer contigo
Tudo foi, nada é, tudo está apagado

Evita o meu amor
Esmaga o meu coração
Renuncia a minha dor
e vive sem a minha mão

Evita se assim quiseres
Mas não me faças viver na mentira!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

...

Se soubesse dizer-te do que vejo no lado de dentro
das palavras, quando tropeço numa ideia ou numa sílaba ou num gato preto agasalhado pelo sol vadio dos meus olhos?;

Se soubesse falar-te sem derivas da teia que me prende ao abandono nestes
dias apressados do Outono?;

Se soubesse calar-te a minha dor estrangulada pelos passos impossíveis, mal me adentro a pensar no amanhã
(quando esse amanhã pode fugir-me, e sem deixar aviso ou recado?);

se soubesse dizer-te desta dúvida que me rói no agudo descompasso entre o dentro e o fora a que me abraço?;


Soubesse eu... e terias certamente um poema sem palavras, simplesmente.

domingo, 7 de setembro de 2008

...

«Só o tempo realmente escreve
e usa como pena o nosso corpo.
Pelas estradas, num cinema,
numa cama essa caligrafia é perdida
e é atroz o descuido dos deuses e dos homens.
O que acaba chegando ao papel
é só o comentário que sobrou
de um poema eternamente disperso.
Modesta nota de pé-de-página,
decalque de um conto,
é o último índice de todos os índices.»

sábado, 2 de agosto de 2008

Arte-Final


Não basta um grande amor
para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
que o amor da gente.

O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.

Uma coisa é a letra,
e outra o ato,

– quem toma uma por outra
confunde e mente.

- Affonso de Sant’ana -

Obs - Affonso escreveu. Eu assino por baixo